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NOVO JARDIM DAS DELICIAS - Um diálogo delirante entre os Séculos 16 e 21
Exposição Casa de Petrópolis maio/julho 2025

A fotografia sofre uma metamorfose radical em Novo Jardim das Delícias, exposição de Mario de Aratanha. Nela, a imagem capturada por suas cameras e remixada por meio das possibilidades da colagem digital. Aratanha retrabalha o icônico Jardim das Delícias Terrenas, de Hieronymus Bosch, forjando um diálogo ousado entre os séculos XVI e XXI.

 

Em suas mãos, pixels se transmutam em pinceladas; texturas e cores se transformam e a fotografia se liberta de sua própria natureza para se tornar um campo de intervenção - uma tela aberta onde a imaginação rompe e refaz o mundo visível. Suas composições pulsam com uma vitalidade inventiva que simultaneamente honra e subverte o universo visionário de Bosch. Nessa paisagem expandida, as visões do pintor se entrelaçam com texturas contemporâneas, forjando novos mitos.

 

O processo de Aratanha é animado por um engajamento lúdico com a Loucura - não a patológica, mas a criativa - aquela celebrada por Erasmo de Roterdam, pela Metamorfose Ambulante de Raul Seixas, pelo Porta Voz da Incoerência de Alceu Valença. O artista já explorava a transfiguração em uma mostra anterior, onde troncos de árvores sugerem Ents de Tolkien ou criaturas híbridas surreais eram adornadas com olhos de gato.

 

A relação do artista com a colagem lhe dá plena liberdade para transgredir a ética da originalidade. Como uma Rapsódia sobre um Tema de Paganini ou uma Bachiana Brasileira (não tivesse ele, por 32 anos, produzido em sua gravadora Kuarup mais de 200 discos), suas imagens recompõem e reinterpretam um mundo familiar. Em um ato de insurgência estética, Aratanha entrelaça plantas de seu quintal, fragmentos da sua rua com as paisagens oníricas do tríptico de Bosch. Sem estar preso ao tema retratado pelo pintor - o céu, o inferno, os prazeres da vida mundana - cria um novo jardim expandido onde prevalece o delírio.

 

Jardim das Delícias convida o espectador a um jardim suspenso. Tempo, matéria e imaginação se dissolvem. Mario de Aratanha transforma delírio em linguagem, colagem em revelação - e nos lembra que a arte tem o mérito de reinventar infinitamente o mundo que acreditamos conhecer.

 

Jeanne Duarte

Coda: Expo "Colagens", com Lúcia de Moura Chama, galeria A Cigarra, dez 25/jan 26
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