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NEW YORK NEW YORK - PICCOLA ARENA - ROCIO - JUN-JUL/2024

Toda fotografia é um palimpsesto. Toda cidade também.


Na fotografia encontramos uma narrativa espaço/tempo pelo olhar do fotógrafo. Na cidade, a narrativa muda de acordo com a função, forma e significado, alterados pelas mesmas dimensões, o espaço construído e o tempo vivido. Em ambas, há um texto superposto, que se oculta sob um outro, deixando rastros. Como nos pergaminhos - palimpsestos - dos séculos VII a IX.

É essa junção cidade / fotografia que dá origem à exposição New York New York, na qual Mario de Aratanha reescreve a metrópole que tantas vezes visitou. Para ele, aquela Nova Iorque que habita no imaginário de todo mundo, mesmo os que nunca estiveram lá, abriga várias outras cidades.

Se antes o triunfo do Empire State, então maior prédio do mundo, disputava com a moça de cabeça espetada o título de símbolo maior, hoje um enorme vazio transformado em monumento ao 9/11 faz a ausência gritar de dor. Ergue-se o passado no presente, possibilitando a recuperação da memória e cumprindo assim a mesma função da fotografia.

Aos fatos, Mario sobrepõe outras camadas e é dali, do subtexto, que vem a sua arte. Há uma cidade desfigurada, esperando que o fotógrafo a reconstrua, a manipule, a recrie, a ilumine. A realidade - isso existe? - é menos importante do que a ficção.

Um avião cruza torres mas ambos saem ilesos. A gigantesca bandeira vermelha e azul estendida no campo de futebol americano aparece rota em outro local. Tipos humanos no metrô são retratados por seus rostos ou por suas gigantescas unhas, e são tão interessantes quanto os cães chiques que passeiam pelas ruas. Do alto do centésimo andar no Edge, a cidade é minúscula, distante e imponente. Ele a chama de volta para perto. Em meio à selva urbana, a superlente traz em primeiro plano a natureza pedindo ao fotógrafo que não deixe seu olhar amoroso se afastar.

É certo que outros palimpsestos sejam acrescidos. A cada espectador que aqui na mostra cria uma nova narrativa, com suas recordações ou invenções de memória, Nova York renasce sob o passado. É quando o fotógrafo, orgulhoso da sua oferenda visual, agradece.

Jeanne Duarte

 Esta mostra é dedicada à memória de Paul Auster e Roberto Szidon. Música George Gershwin. Agradecimentos especiais a Connie Fishman, Jeffrey Fagan e Gerald Seligman. E mais ainda a Jeanne Duarte e Mauricio de Memória. 

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